sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Nos 58 anos da sua morte - parte do prólogo de Amar e Servir - Hipólito Raposo

Por causa deste prólogo o autor foi preso e deportado para os Açores por Salazar.
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Relanceando os olhos para a esquina do Planeta, com admiração sempre renovada, podemos observar o que se vai passando na célebre República da Ilusitânia, criação maravilhosa da nova idade do ferro e oiro.
No mapa da geografia humana, fica situada à maior latitude do Arbítrio Pessoal e na maior longitude do meridiano da Razão Política, tendo sido revelada das altas nuvens à terra inteira pelos pregões mercenários da glória e pela voz metálica da radiodifusão, através do etéreo espaço.
Nesse estranho país dos paradoxos e antíteses, por misteriosa feitiçaria das cifras e dos cifrões, da adição de parcelas negativas resultam somas ou totais positivos; os naturais veêm e sentem quadros de inferno onde aos forasteiros se revelam miragens de paraíso; uns vivem a sonhar ventura, outros vão tropeçando em duras pedras ou caindo em ciladas de perdição.
                Mas se algum curioso da verdade quisesse descer ao plano das realidades, não as conseguiria tocar: elas fugir-lhe-iam, à semelhança do arco-íris que só de longe se contempla e subitamente desaparece, quando alguém avança ao seu encontro.
                No mesmo signo de contradição, para corresponder à exigência do momento histórico em que possam reclamar-se extremas resoluções de sacrifício, por lá se descobre a vegetar uma sociedade de gente de nova feição que pela prática abusiva das curvas, deixou perder a prerrogativa da verticalidade da espinha com que o Criador distinguiu os humanos, contentando-se com a comodidade e o viscoso proveito de moluscos.

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Pela Ética Social que nessa distante república vigora, a falta de recato e vergonha aceita-se complacentemente entre os fiéis de Plutão, revelando-se por frequentes audácias de banksters de novo estilo, ou por indústria de ladravazes em metódicos desfalques que por indulgente eufemismo, se chamam desvios.
A tais crimes, nem os comentários das estações oficiosas, nem as gazetas e tribunais já ousam chamar roubo ou latrocínio, conforme exigiriam a correcção e a legítima propriedade da velha língua.
                Nessa República que o Divino Grego não pôde sonhar, tudo decorre em regime de ficção cenográfica, com a jovial concórdia de uma numerosa câmara que, por concerto prévio, vive na bocejante paz da unanimidade, sem ninguém ousar em voz alta lembrar-se de que em todos os tempos e lugares, sempre as assembleias existiram com a pressuposição da justificada divergência de pareceres.
                Se não fosse essa lei da servil obediência ao paradoxo, a concordância por dogma político, importando a infalibidade do Poder na Ilusitânia, justificaria também, por veredicto da consciência pública e providência de boa economia de tempo e dinheiro, a moralizadora supressão de um órgão sem a função que lhe pertence.
                É assim que os erros se moderam, tudo se facilita e perdoa nos repetidos e lautos banquetes de Baltazar, em que os densos vapores das salas a ninguém permitem reler as palavras fatídicas.
Hipólito Raposo in Amar e Servir – Livraria Civilização, 1940 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

AS REPÚBLICAS E A MONARQUIA - Henrique Barrilaro Ruas

Tal como os homens, também as nações precisam de viver habitualmente. Mas nem todo o hábito é virtude. Há-os que são vícios. E, quando o vício é colectivo, não há ninguém que não sofra com ele. Porque é da natureza do indivíduo participar do bem comum, e também do mal comum, da sociedade a que pertence. 


A República, em Portugal, começou por ser o contrário de um hábito. Actos isolados, casos soltos: nada mais. Eram quase todos da matéria de que se fazem os vícios. Mas, para serem vícios, faltava-lhes serem habituais. Nenhum vício é episódico. 


Mais tarde, por acção alheia, a República deixou de ser em episódios. Fez-se hábito. Por isso foi aplaudida. Aplaudiram-na os viciosos e os virtuosos. Os primeiros porque viam enfim estabelecido, assente, de algum modo indiscutível, o que antes não passara de tentativa fruste. Os últimos, porque estavam ainda dominados pela ideia (deixada por muitos séculos de Poder Real) de que habitual, em Política, é necessariamente virtuoso. 


Foi assim que começou o culto da continuidade. Esse culto tem tomado as formas mais aberrantes e mesquinhas. Nalguns casos, é apenas o culto do contínuo (uma das fontes mais caudalosas da Burocracia nacional). 


Mas eis que o tempo entrou a fartar-se da continuidade no mal. E já vai ensinando a indivíduos e grupos que não basta durar: é preciso durar bem. 


Por causa da República-sistema, é a autentica república dos Portugueses que perde o norte do Bem Comum. As competências, deslocadas da sua função natural, tornam-se incompetências. Os homens gastam-se em tarefas sem sentido. As instituições definham. O humano desejo de participar faz-se maldição. O que podia ser belo e fecundo rito de universalização do individual desce ao nível da farsa ou da paródia. As gerações que deviam dar à Pátria viço novo e uma inquietude transfiguradora, quase não trazem mais do que a dúvida e a negação. E muitos dos raros que deixam crescer na alma a sede de heroísmo, vão queimar-se em aventuras sem beleza. São estes os frutos da ideologia republicana. 


Porque, na crise aberta do mundo de hoje, na fermentação e gestação do mundo de amanhã, não está presente a integral e viva portugalidade, mas a rigidez de um esquema, uma convenção, uma fórmula jurídica. 


Toda a Nação Portuguesa fermenta e lateja, na promessa e na exigência de uma vida nova. A todo esse murmurar profundo e crescente, a República só oferece, ou a rigidez imutável, ou a própria mobilidade como ideal. 


É sobretudo para as novas gerações que a Monarquia há-de surgir identificada com a Esperança. Esperança de dignidade e justiça; esperança de paz. Esperança de uma vida que seja autêntico e fecundo conviver. Esperança de uma alegria nova, em que o corpo e a alma comunguem. Esperança de vitória do natural sobre o absurdo, do normal sobre o obrigatório. Esperança no abraço do Homem com a Terra, no acordo dos homens uns com os outros, na realização da Pessoa para além de todos os planos do colectivo.


(1963) 


Henrique Barrilaro Ruas (23 de Março de 1921 - 14 de Julho de 2003)


in http://jacarandas.blogspot.com/2004_07_01_archive.html

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O poder das pessoas e das suas comunidades


Durante décadas a direita tradicional liberal fez a apologia dos mercados como motor da humanidade. Do outro lado a esquerda socialista agarrava-se ao estado tutor centralizador, mais tarde convertido em “estado social”. Hoje temos um mundo em crise, motivada por esta dicotomia de sistemas que esqueceu uma terceira via: as pessoas e a sua organização comunitária natural.
Vivemos numa sociedade de informação e comunicação que promove a participação e possibilita o regresso à vida comunitária. Podem existir fórmulas de democracia que sejam diferentes da representação partidária que temos. A democracia directa e participativa, é nos dias de hoje, com os meios de comunicação existentes, cada vez mais uma possibilidade real. Pelo menos ao nível da organização comunal. Os municípios portugueses, com toda a sua identidade histórica, podiam ser entidades comunais, com poderes administrativos substancialmente maiores e que poderiam ser governados por um sistema de democracia directa (assente nas assembleias comunais). Depois, basta coroar essas repúblicas de homens livres, com um Rei que una a nação. Bastaria um rei para unir a nação e alguns ministros (eleitos por uma assembleia de representantes comunais e corporativos) para questões de administração central e relações exteriores. Um governo com substancialmente menos poderes. Um Rei que representa a nação para a chefia do estado, das forças armadas e dos negócios estrangeiros. É apenas uma ideia diferente de sociedade. Mas merece pelo menos o respeito de alternativa perante a falência do modelo actual.
Se continuarmos na velha dicotomia entre a apologia dos mercados e do estado social, apenas continuamos a criar seres egoístas, que lutam nas ruas, não pela liberdade ou por outra qualquer causa comunitária, mas por um LCD, um plasma ou um computador, que possam levar para a sua casa depois da montra partida. Apenas continuamos a alimentar predadores dos solos férteis e dos recursos naturais, que não se importam com o que poderá acontecer nas gerações seguintes, desde que consigam obter o lucro fácil numa qualquer operação especulativa.
Devolvamos pois o poder às pessoas e às suas comunidades.

domingo, 31 de julho de 2011

Alexandre Herculano - Que o País seja Governado pelo País




“…É por isso que queremos a verdade do Governo representativo, que proporciona à razão os meios de se produzir e manifestar pela discussão, de ser consagrada pela eleição, e de reduzir constantemente o poder de facto à soberania de direito pelo processo das fórmulas constitucionais. Por isso, afirmando a harmonia da utilidade social com a justiça absoluta, derivamos aquela desta, e não acreditamos que nos possam vir bens reais e duradouros da quebra dos princípios nem que da injustiça se possa seguir o progresso, nem que os fins devam santificar os meios, nem nenhuma das máximas ateias e desmoralizadoras que o cepticismo tem tantas vezes pretendido introduzir no mundo político.
Mas, para que o sistema representativo seja uma realidade, para que a eleição, na base essencial, não seja uma vil comédia, para que as garantias sociais não sejam letra morta, sepultada nos artigos virgens do código da nação, para que o princípio de que o país deve ser governado pelo país seja uma realidade, queremos que a vida política seja  levada a todas as extremidades do corpo da nação. Queremos que a vida local seja uma realidade, para que o Governo central possa representar o pensamento do país. Detestamos todas as tiranias, seja qual for o nome com que se disfarcem, seja a tirania dos reis contra os povos, dos privilegiados contra a plebe, da capital contra as províncias, de uma facção contra o país ou de uma oligarquia de especuladores políticos contra a totalidade dos cidadãos. …”

1853 – in Opúsculos

Ver mais em:  


sábado, 23 de julho de 2011

O Integralismo Lusitano, hoje

Esta foi a última afirmação pública do Integralismo Lusitano, enquanto movimento de ideias, ainda em vida de Henrique Barrilaro Ruas (1921-2003) e Fernando Costa Quintais (1926?-2007). Pode servir como um dos pontos de partida e/ou de reflexão para a Resistência Popular Realista.

O Integralismo Lusitano, hoje

É:
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1. Uma concepção geral do mundo e da vida (uma filosofia) coincidente com o que se pode chamar Humanismo Cristão (visão do Homem na sua totalidade, como pessoa e comunidade de pessoas livres, chamado a uma perfeição que, embora relativa, é imortal, mediante o processo hierárquico que o faz subir da esfera económica à política e desta à religiosa).

2. Uma visão geral da Política como realidade e idealidade do Homem na sua multiplicidade (homem social; homem comunitário; homem no mundo, responsável pela criação), enquanto propriamente humano, ou seja, considerado na sua essência mesma, teoricamente desligado quer da esfera económica, quer da religiosa; embora capaz de subordinar a Economia e de se abrir à Religião. Nessa visão do Homem, sobressai o ser histórico, como Tradição.

3. Uma visão geral do Povo Português como nação concretamente vinculada a um território mas capaz de se cumprir em qualquer parte da Terra, segundo uma intenção universalista vivida como serviço à humanidade em geral.

4. A defesa de uma constituição natural e histórica da Nação Portuguesa, fundamentada na dignidade da pessoa humana e na subordinação do indivíduo à comunidade, num sistema de instituições organicamente encabeçadas pela Instituição Real.

ass.
Henrique Barrilaro Ruas (1921-2003)
Teresa Maria Martins de Carvalho
Fernando da Costa Quintais (1926?-2007)
António Maria Oliveira Pinheiro Torres
Maria do Carmo de Almeida Braga
José Manuel Alves Quintas
Frei Francisco Martins de Carvalho O. P.

Lisboa, 10 de Junho de 2002.